NRF 2026: O varejo de moda não precisa ser mais digital — precisa ser mais inteligente

NRF 2026: O varejo de moda não precisa ser mais digital — precisa ser mais inteligente

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Todos os anos, milhares de executivos do mundo inteiro desembarcam em Nova York para a NRF, o maior evento global de varejo. Em 2026, o tom foi mais maduro e pragmático: o problema do varejo não é falta de tecnologia. É excesso de complexidade, decisões mal orientadas por dados e pouca clareza estratégica.

Depois de acompanhar de perto a programação oficial, com um olhar especialmente atento para o setor de moda, voltei com uma convicção ainda mais forte: o varejo não precisa ser mais digital — precisa ser mais inteligente, mais humano e mais estratégico.

O fim da obsessão por ferramentas. O começo da obsessão por dados melhores

Durante anos, o varejo correu atrás da próxima grande solução tecnológica: CRM, BI, automação, IA, omnichannel, retail media, super apps. O problema é que ferramentas, sozinhas, não resolvem estratégia. Pelo contrário: quando mal estruturadas, podem inclusive amplificar o seu problema. Organizar dados, processos e cadastros deixou de ser um diferencial e passou a ser pré-requisito básico para qualquer empresa que queira crescer de forma consistente.

Os cases vistos na NRF, como o da Target por exemplo, que usa os dados do marketplace para detectar tendências, ajustar sortimento e prever demanda, reforçam que não importa o quanto sua empresa é tecnológica se ela não consegue transformar dados em decisões no dia a dia da operação.

É justamente aí que entra a grande virada. A inteligência artificial começa a assumir um papel estratégico, e não apenas operacional. Estamos entrando na era do chamado Agentic Commerce — sistemas capazes de analisar volumes massivos de dados, aprender com padrões de comportamento, antecipar necessidades e até realizar compras em tempo real. Mais do que automatizar tarefas, essas soluções passam a apoiar escolhas, reduzir riscos e aumentar a eficiência em toda a cadeia.

O novo consumidor não quer mais comprar. Ele quer resolver a vida

Outro ponto central da NRF 2026 foi o comportamento do consumidor. O novo consumidor não quer simplesmente comprar, ele quer resolver a vida. Está mais racional, mais pragmático e muito menos tolerante a fricções. Busca agilidade, conveniência, curadoria, experiências sem atrito e, acima de tudo, coerência de marca.

Na prática, isso se traduz em pedidos cada vez mais objetivos e personalizados, como: “Busque para mim uma camisa que não amasse, com tecido tecnológico, boa qualidade e que chegue na minha casa até o próximo sábado”. Ou ainda: “Quero um vestido rosa adequado para a minha idade, que não me faça parecer um cupcake”.

O consumidor está mudando a forma como pesquisa. Algum produto da sua marca apareceria como recomendação nos casos acima?

No varejo de moda, isso exige uma mudança importante: parar de pensar apenas em coleção e começar a pensar em soluções de estilo para a vida real. É uma virada profunda de mentalidade. Isso impacta desde o planejamento de mix e a arquitetura das coleções até a jornada em loja, a comunicação e o papel do vendedor.

Dados não são o novo petróleo, são o novo sistema nervoso

Outro tema central da NRF 2026 foi o papel dos dados. Eles deixam de ser vistos como o “novo petróleo” e passam a funcionar como o verdadeiro sistema nervoso das empresas. Varejistas de alta performance estão conectando dados de comportamento, transacionais, de navegação, atendimento e estoque para gerar o que realmente importa: inteligência acionável. Ou seja, informações que orientam decisões claras para quem está na ponta.

No varejo de moda, isso muda completamente a lógica de:

  • Planejamento de coleção
  • Grade
  • Reposição
  • Precificação
  • Comunicação
  • VM
  • Estratégia promocional

O futuro não pertence a quem acumula mais dados, mas a quem consegue transformá-los em escolhas mais rápidas, melhores e mais precisas.

O grande desafio do varejo de moda no Brasil

No Brasil, esse desafio ganha contornos ainda mais relevantes. Nossa criatividade, capacidade comercial e força de marca são inegáveis. Temos produtos desejáveis, lojas bonitas e equipes engajadas. Mas, em muitos casos, ainda operamos com decisões excessivamente intuitivas, planejamento pouco orientado por dados, processos fragmentados e baixa integração entre áreas.

Portanto, o horizonte que se enxerga é que o crescimento sustentável não virá de mais lojas, mais mídia ou mais desconto. Ele virá de mais inteligência nas tomadas de decisão.

O varejo que cresce é o que pensa melhor, que age com inteligência e velocidade, sem perder o foco no cliente real.

E é nessa interseção entre estratégia, comportamento, dados e operação que o varejo para de correr atrás do futuro e começa a liderá-lo.

O tema da NRF desse ano “The Next Now” foi um convite à ação. Não para esperar tendências, mas para construir, hoje, o varejo que queremos ver amanhã. Porque o futuro da moda não está adiante. Ele já está em movimento.

Você pode se interessar por isso: Abordagem, sangue nos olhos, faca na caveira? Até quando vamos continuar agredindo nossos consumidores?

Em artigo publicado em fevereiro de 2026, Cecilia Rapassi — executiva, estrategista e pesquisadora do varejo há mais de duas décadas — compartilha suas principais percepções da NRF 2026, o maior evento global de varejo, realizado em Nova York. Segundo a autora, o tom deste ano foi maduro e pragmático: o varejo não precisa de mais tecnologia, precisa de mais inteligência. O verdadeiro gargalo das empresas está no excesso de complexidade, nas decisões mal orientadas por dados e na falta de clareza estratégica. Rapassi destaca a ascensão do Agentic Commerce — sistemas de IA que antecipam necessidades e apoiam decisões em tempo real — e aponta que o novo consumidor quer resolver a vida, não apenas comprar. Para o varejo de moda brasileiro, o crescimento sustentável virá de decisões mais inteligentes, e não de mais lojas ou descontos. O tema do evento, “The Next Now”, foi um convite à ação imediata.

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