Lá vamos nós: outro texto sobre IA no varejo em 2025.
Eu sei, eu sei, você já ouviu falar de “transformação digital”, “dados como novo petróleo” e “machine learning” até perder a paciência. A proposta aqui é outra. Em vez de repetir o discurso, vale olhar para o que está acontecendo quando a porta da sala de reunião fecha e o varejo volta ao lugar onde ele é decidido de verdade: no preço, no estoque, no atendimento e na operação.
O próprio portal do AV já mostra isso. Esse deslocamento do discurso para a prática aparece na forma como a inteligência artificial passou a ser tratada editorialmente. No Acelera Varejo, o tema deixou de ser tendência para virar assunto operacional.
Entre 2023 e 2025, foram publicados mais de 40 artigos sobre IA no varejo, com uma mudança clara de enfoque: menos debate conceitual e mais análise aplicada. Menos “o que é IA” e mais “onde ela realmente ajuda a vender, estocar e atender melhor”.
Se 2023 e 2024 foram anos em que a inteligência artificial ocupou palcos, slides e timelines corporativas, 2025 virou o ano em que ela começou a aparecer de forma mais silenciosa e mais importante. Enquanto muita gente discutia se a IA no varejo seria disruptiva, ela foi sendo incorporada, aos poucos, em rotinas que não viram post no LinkedIn.
Isso não significa que todo mundo esteja usando bem, nem que a adoção tenha virado regra. Significa que a conversa passou a ter consequências práticas. A tecnologia deixou de ser “um diferencial” e virou parte do kit de sobrevivência em um ambiente de margem pressionada e consumidor mais exigente.
Um exemplo desse tom aparece em análises internacionais que tratam IA e experiências phygital como imperativos competitivos, não como adorno. Em artigo publicado em abril de 2025, o Retail Today argumenta que o setor vive uma encruzilhada em que essas tecnologias deixaram de ser vantagem e passaram a ser necessidade para manter eficiência e engajamento do consumidor.
No Brasil, a sensação de urgência também entrou no orçamento. A Salesforce, na sexta edição do Connected Shoppers Report, apontou em abril de 2025 que 73% dos varejistas brasileiros planejavam aumentar investimentos em IA em 2025 e que 82% avaliavam que ela seria essencial para competir dentro de um ano. O recorte local do estudo incluiu 500 consumidores e 100 executivos no país, dentro de uma amostra global maior.
Essa fricção entre plano e prática é recorrente nas colunas do Acelera Varejo. Para Edmour Saiani, o varejo brasileiro já entendeu a urgência da IA, mas ainda tropeça na execução, tratando tecnologia como iniciativa paralela e não como parte da rotina operacional.
Só que é aqui que a história fica mais interessante, e mais incômoda. Porque intenção e execução raramente andam no mesmo ritmo. Mesmo com a IA no planejamento e no discurso, a implementação prática esbarra em obstáculos concretos.
Uma pesquisa da CNDL/SPC Brasil, realizada em julho de 2025, mostrou que apenas 14% dos empresários brasileiros do comércio e serviços faziam uso efetivo de inteligência artificial nos negócios, e que 52% apontavam a falta de informação como principal barreira para adoção.
Esse contraste ajuda a explicar por que tanta empresa sente que “todo mundo já está usando” e, ao mesmo tempo, pouca coisa muda na operação. O problema não é apenas desconhecimento técnico. É incerteza estratégica. A EY, no relatório “Desafios e Tendências 2025”, resume o impasse com precisão ao afirmar que “a questão-chave é que, muitas vezes, as inovações evoluem mais rapidamente do que a capacidade de incorporá-las nos modelos de negócio”.
O relatório foi publicado como um conjunto de insights para 2025, mas a frase segue atual neste fim de ano: a velocidade das ferramentas continua maior do que a capacidade de muitas empresas de transformar novidade em processo, prioridade e resultado.
Na prática, esse descompasso cria um paradoxo que se repete no varejo. Líderes reconhecem a importância da IA no varejo, mas travam quando precisam escolher o primeiro caso de uso, desenhar um plano de dados, treinar gente e assumir um investimento que vai além da licença de software.
A primeira dúvida costuma ser simples, porém paralisante: por onde começar. Atendimento ao cliente, gestão de estoque, precificação dinâmica, marketing personalizado, prevenção de perdas, roteirização, crédito, fidelidade, conteúdo. O cardápio é tão amplo que a abundância vira ruído. Quando não há um problema de negócio bem definido, a IA vira uma lista de desejos e não uma alavanca.
A segunda trava é o cálculo de ROI, especialmente quando se fala de GenAI. Em reportagem do IT Forum sobre a pesquisa “Antes da TI, a Estratégia” 2024, o diretor de pesquisa da IDC América Latina, Pietro Delai, explica que a dificuldade está em medir custo e benefício quando, em muitos casos, “não se sabe quanto vai custar nem quanto vai gerar de resultado”, justamente por falta de métricas e maturidade. Não é uma desculpa. É um sintoma: sem base de dados, sem governança e sem clareza de processo, a conta não fecha porque a empresa não sabe o que está medindo.
E aí vem a terceira barreira, que é menos discutida em público: o custo real. Licenças, infraestrutura, integração com sistemas legados, qualidade de dados, segurança, treinamento, consultoria, mudança de processo. Quando se soma tudo, o investimento inicial pode parecer proibitivo, em especial para pequenas e médias empresas, que vivem num varejo em que qualquer ponto de margem conta.
O risco vira ainda maior quando surge a quarta dúvida, talvez a mais comum em bastidores: como garantir que não é apenas hype. Há um medo legítimo de investir no “modismo da vez”, implantar uma ferramenta que impressiona na demonstração e decepciona no caixa, ou ficar preso a soluções que envelhecem rápido.
IA no varejo em 2025: útil e necessária!
Esse conjunto de dúvidas explica a paralisia disfarçada de prudência. A empresa diz que está “esperando amadurecer”, quando, muitas vezes, o que falta é um roteiro pragmático. O varejo que sai do lugar costuma fazer o oposto do impulso natural.
Em vez de começar grande e genérico, começa pequeno e específico. Não parte de “queremos usar IA no varejo”, mas de algo como “precisamos reduzir ruptura”, “queremos melhorar conversão”, “precisamos diminuir tempo de atendimento”, “queremos aumentar acurácia de previsão de demanda”. A tecnologia entra como meio, não como fim.
Isso é especialmente importante porque, no varejo, IA e dados conectados atacam dores antigas, e não um futuro abstrato. E aqui existe um cansaço, já retratado no Portal Acelera Varejo, que pouca gente admite em voz alta: depois de anos ouvindo promessas de integrações “plug and play”, de unificação de dados em poucos cliques e de jornadas conectadas quase mágicas, muitas empresas chegaram a 2025 vacinadas contra o discurso fácil.
Na prática, conectar sistemas é mais demorado, mais caro e mais trabalhoso do que se imaginava. Envolve legado, qualidade de dados, regra de negócio, exceções operacionais, mudança de processo e, principalmente, gente. A tecnologia evoluiu muito, mas o varejo aprendeu que não existe atalho quando o objetivo é transformar dado em execução consistente.
Superadas as barreiras estruturais mais conhecidas do varejo, a questão deixa de ser “se” e passa a ser “como”. Por onde começar?
A primeira dor é produtividade comercial. Precificação, sortimento e promoção ficaram mais complexos com volatilidade de demanda, competição por canal e consumidor mais sensível ao “Value Chasing” comentado no texto anterior.
Quando bem aplicada, IA reduz o atraso entre sinal e ação. Ela não faz estratégia sozinha, mas acelera ajustes, melhora leitura de elasticidade e ajuda a diminuir desperdício de promoção mal calibrada. O valor não está no “algoritmo”, mas no ciclo mais curto entre o que o dado mostra e o que a operação executa, desde que a base esteja minimamente organizada para sustentar decisões em escala e não apenas bons testes pontuais.
A segunda dor é abastecimento. Ruptura é um imposto caro. Excesso de estoque também. E o que muda o jogo não é apenas prever demanda, é conectar dados entre canais e lojas para enxergar o que vende, onde vende e com qual dinâmica.
A agenda de unified commerce, destacada na cobertura da NRF 2025, aparece justamente como resposta a esse desafio de integração: sem sistemas conversando e sem visão consistente de estoque e cliente, a promessa de personalização e conveniência vira frustração.
A terceira dor é experiência e atendimento. O consumidor de 2025 quer rapidez, mas não abre mão de confiança. E, conforme IA se populariza, as expectativas sobem. Um ponto crítico é transparência. No relatório Zendesk CX Trends 2026, a empresa aponta que 95% dos clientes desejam entender por que a IA toma determinadas decisões, enquanto uma parcela menor das organizações oferece justificativas claras.
Para o varejo, isso tem impacto direto em temas sensíveis como reembolso, preço e elegibilidade de benefícios. Automatizar sem explicar pode até reduzir custo no curto prazo, mas aumenta atrito, reclamação e desconfiança, que são custos igualmente reais.
Não por acaso, grandes grupos já tentam enquadrar estes temas como algo operacional e não apenas experimental. Em outubro de 2025, o Grupo Carrefour Brasil publicou conteúdo institucional sobre como a IA no varejo pode apoiar decisões baseadas em dados, prever demanda e otimizar operações. É uma sinalização relevante porque desloca a conversa do “laboratório” para o abastecimento, para a loja e para a eficiência.
No fim, a diferença entre quem avança e quem emperra raramente é “ter a melhor ferramenta”. É ter base. Sem integração de dados, IA vira cosmético. Sem governança, IA vira risco. Sem clareza de caso de uso, IA vira custo.
É por isso que, apesar de toda a espuma do debate, o movimento mais inteligente no varejo costuma ser pouco glamouroso: organizar dados, definir responsabilidades, garantir qualidade mínima, escolher um problema mensurável, testar em um recorte controlado e medir desde o começo. Esse ponto é recorrente nas análises do Acelera Varejo: sem dados consistentes, integrados e comparáveis, não há IA, no varejo automação ou analytics que sustente decisões em escala.
Começar pequeno não é falta de ambição. É método. Pilotos bem desenhados em uma categoria, uma loja ou um segmento de clientes criam aprendizado rápido e evitam que a empresa tente “implantar IA” como se fosse uma obra de infraestrutura.
Parcerias também ajudam a reduzir barreira, especialmente quando o modelo comercial aproxima pagamento do uso e do valor entregue. E capacitar o time de gestão é indispensável, não para transformar todo mundo em especialista, mas para impedir que decisões estratégicas virem terceirização cega.
O resultado de não fazer nada, neste ponto do ciclo, costuma ser pior do que errar tentando. Porque o “momento certo” raramente chega. A tecnologia não vai desacelerar para caber no organograma, e o consumidor não vai reduzir exigência para facilitar a vida do varejo.
O que 2025 mostrou, com mais clareza do que qualquer webinar, é que IA deixa de ser assunto de palco quando começa a morar onde o varejo decide seu destino: no caixa, no estoque, no atendimento e na loja. E, para quem ainda está travado, a maior ameaça não é escolher a tecnologia imperfeita. É não escolher nada e descobrir que o concorrente aprendeu primeiro.
A IA não acabou. Ela só foi trabalhar — e sem aviso no LinkedIn.
Fontes
- AI, Phygital Retail and the New Competitive Imperative
Autor: Retail Today
Data: abril de 2025
Link: https://retail-today.com - Connected Shoppers Report – 6ª edição (Brasil)
Autor: Salesforce
Data: abril de 2025
Link: https://www.salesforce.com - Uso de Inteligência Artificial no Comércio e Serviços
Autor: CNDL / SPC Brasil
Data: julho de 2025
Link: https://www.cndl.org.br - Desafios e Tendências 2025
Autor: EY (Ernst & Young)
Data: 2024–2025
Link: https://www.ey.com - Antes da TI, a Estratégia
Autor: IDC América Latina
Publicação: IT Forum
Data: 2024
Link: https://itforum.com.br - NRF 2025 Coverage: Unified Commerce and Retail Integration
Autor: NRF – National Retail Federation
Publicação: Meio & Mensagem
Data: janeiro de 2025
Link: https://www.meioemensagem.com.br - CX Trends 2026
Autor: Zendesk
Data: 2025
Link: https://www.zendesk.com - IA aplicada à operação e tomada de decisão no varejo
Autor: Grupo Carrefour Brasil
Data: outubro de 2025
Link: https://www.grupocarrefourbrasil.com.br


